Artigo de Opinião: Arquitetura da Ansiedade

Como a desorganização corrói a segurança psicológica no trabalho.

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Há empresas que não são ambientes de trabalho. São casas onde os móveis foram mudados de lugar tantas vezes que ninguém mais sabe onde termina a sala e começa o quarto. As pessoas entram todos os dias e tropeçam em decisões mal posicionadas, em papéis que deveriam ter sido jogados fora há anos, em responsabilidades que pertenciam a alguém que já nem trabalha mais ali.

O nome técnico disso é desorganização sistêmica. O nome humano é: viver em território instável.

Nessas empresas, ninguém consegue descansar. Não porque falte sofá, mas porque o chão se move.

Você não sabe: quem aprova, quem responde, quem decide, quem segura quando algo cai.

E quando o chão não é confiável, o corpo entra em estado de alerta.
A mente passa a escanear o ambiente como um animal numa floresta hostil. Cada e-mail é uma ameaça. Cada reunião, uma armadilha. Cada silêncio, uma sentença.

Isso é ansiedade, não a que nasce de dentro, mas a que é fabricada pela arquitetura invisível do lugar.

A literatura chama de “ambiguidade de papéis”, “sobrecarga cognitiva”, “falha de processos”, mas o organismo traduz de outra forma: “Se eu errar, não sei quem vai me proteger.”

A ansiedade organizacional não vem da quantidade de trabalho. Ela nasce da imprevisibilidade. Trabalhar muito cansa. Trabalhar sem saber o que vale, quem manda e onde termina a sua responsabilidade enlouquece.

É por isso que pessoas brilhantes começam a parecer distraídas.
Não estão desatentas, estão hipervigilantes. Estão gastando energia tentando entender o mapa de um território que muda toda semana. Como um hóspede que acorda toda manhã e descobre que alguém moveu a porta do banheiro.

Empresas assim dizem: “As pessoas aqui são ansiosas.”

Mas o que elas realmente têm é um prédio sem planta, sem placa e sem saída de emergência.

E o sistema nervoso humano foi feito para sobreviver em florestas, não em labirintos administrativos.

A ansiedade cresce onde a lógica falta. E nenhuma meditação do mundo conserta um edifício construído sem engenharia.

Sobre a autora

Solange das Flores Nascimento, conhecida por Sol Flores.  Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino. Confira o perfil no Instagram @solflorespsicologia.

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