Eu queria escrever sobre amor
sem transformá-lo em tragédia,
mas acontece que o amor,
quando é verdadeiro,
tem sempre alguma coisa de tragédia.
Porque amar alguém
é dar a essa pessoa
uma arma carregada
e torcer para que ela nunca descubra
onde fica o seu coração.
E eu descobri tarde demais
que existem pessoas
que não precisam nos abandonar
para nos perder.
Algumas ficam.
Ficam na fotografia,
na memória,
no canto da boca quando sorrimos,
naquela música maldita
que ainda sabemos inteira.
Ficam em nós
como ficam as cidades depois da guerra:
de pé,
mas irreconhecíveis.
Talvez seja isso que ninguém conta
sobre sobreviver.
Você não volta a ser quem era.
Você aprende a caminhar
com os escombros.
Aprende a chamar de maturidade
o que antes chamava de medo.
Aprende a dizer “estou bem”
com a mesma naturalidade
com que antigamente dizia “eu te amo”.
E, um dia, percebe o absurdo:
passamos metade da vida
tentando encontrar alguém
que nos faça sentir em casa,
quando talvez a maior tragédia
seja nunca termos aprendido
a morar em nós mesmos.
Então amamos.
Amamos desesperadamente.
Como quem sabe
que o tempo está roubando tudo
e ainda assim decide construir castelos
na beira do mar.
Amamos mesmo sabendo
que haverá despedidas.
Mesmo sabendo
que algumas mãos vão soltar as nossas.
Mesmo sabendo
que um dia seremos apenas
uma lembrança na vida de alguém.
Porque talvez o sentido não esteja
em durar.
Talvez esteja em incendiar.
Em passar pela vida de alguém
e deixar uma luz tão forte
que, anos depois,
quando tudo estiver escuro,
ela ainda consiga lembrar
que um dia foi possível
sentir o mundo inteiro
dentro de um único instante.
E talvez seja por isso
que eu ainda acredito no amor.
Não porque ele salva.
Mas porque, por alguns segundos,
ele nos faz esquecer
que estamos todos condenados
a perder aquilo que amamos.
E que coisa terrível.
E que coisa linda.
Estar vivo é isso:
receber algo que inevitavelmente vai acabar
e, mesmo assim,
ter coragem de chamar de eterno.
Por: Maria V Ribeiro

