Artigo de Opinião: Os Invisíveis da Praça

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Toda cidade tem uma praça. E toda praça, quando nasce, nasce com uma promessa silenciosa: ser o lugar onde todos cabem.

A praça é o território mais democrático de uma cidade. Nela não existe convite, credencial, filiação ou senha. Basta chegar.

Durante muitos anos, essa pequena cidade do interior conheceu bem essa lógica. Aos fins de tarde, quando o calor começava a baixar, a praça se transformava num mosaico humano.

Ali havia de tudo.

O músico que tocava violão desafinado. A professora aposentada que contava histórias.
O grupo de jovens que montava pequenas cenas de teatro. Os artistas que apareciam com ideias improváveis e sonhos grandes demais para um município pequeno.

Era confuso. Era barulhento. Era vivo.

A diversidade cultural de uma cidade nunca foi organizada como um desfile militar. Ela sempre pareceu mais com feira livre: cada barraca com sua voz, sua cor, seu tempero.

Mas, de uns tempos para cá, quem observa a praça com atenção percebe um fenômeno curioso. Algumas vozes começaram a desaparecer.

Não houve proibição. Nenhum edital declarou: “a partir de agora não pode.”
Nenhuma placa foi pendurada dizendo quem pode ou quem não pode ocupar aquele espaço simbólico da cidade.

Apenas aconteceu algo mais sofisticado.

Os convites começaram a circular sempre entre os mesmos nomes. Os palcos passaram a repetir os mesmos formatos. As agendas culturais ficaram cada vez mais parecidas entre si.

Como se a cidade tivesse encontrado um modelo confortável e decidido não se aventurar mais fora dele.

E assim, sem drama e sem escândalo, nasceu uma nova categoria urbana: os invisíveis da praça.

Eles continuam morando na cidade. Continuam criando. Continuam pensando projetos, escrevendo, ensaiando, imaginando, mas parecem ter sido deslocados para uma espécie de margem silenciosa da vida pública.

Não são proibidos. Apenas não são lembrados.

Há algo de profundamente moderno nesse tipo de exclusão. Antigamente as cidades expulsavam pessoas com muros e portas fechadas. Hoje basta não convidar.

O resultado é curioso. A praça continua cheia. As cadeiras continuam ocupadas.
Os microfones continuam ligados, mas algo mudou no ar.

Falta surpresa. Falta aquele pequeno caos criativo que faz uma cidade respirar arte, pensamento, diferença. Falta o inesperado, aquela voz que ninguém esperava ouvir, aquela ideia que bagunça o roteiro.

Porque cultura verdadeira raramente nasce da repetição. Ela nasce da fricção entre olhares diferentes.

Quando essa fricção desaparece, a cidade fica mais tranquila, mas também fica um pouco mais silenciosa.

E cidades silenciosas demais correm um risco curioso: começam a confundir harmonia com ausência de diversidade.

Enquanto isso, a praça continua ali, bonita como sempre. As árvores continuam dando sombra, os bancos continuam esperando visitantes, mas quem caminha devagar percebe que alguns lugares simbólicos de uma cidade podem mudar sem que ninguém perceba.

Eles continuam abertos, só que, de algum modo invisível, passam a ser ocupados sempre pelos mesmos passos.

E quando isso acontece, a praça deixa de ser apenas um espaço físico.

Ela se transforma num espelho.

E espelhos, como sabemos, mostram mais do que gostaríamos de ver.

Sobre a autora

Solange das Flores Nascimento, conhecida por Sol Flores.  Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino. Confira o perfil no Instagram @solflorespsicologia.

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