A pessoa que meu coração reconhece
há noites em que sinto sua falta.
o absurdo é que
eu não sei quem você é.
não sei o seu nome,
o jeito que você ri,
se você dorme com a janela aberta
ou se também olha para o teto
quando o mundo fica silencioso demais.
não sei qual é a sua música preferida.
não sei se você gosta de chuva.
não sei se já amou alguém
a ponto de se perder de si mesma.
não sei absolutamente nada sobre você.
e ainda assim
há uma ausência no meu peito
que tem exatamente o tamanho
de alguém.
às vezes caminho pela rua
e olho para rostos desconhecidos
com uma esperança que me envergonha.
como se você pudesse estar ali.
como se, entre milhares de pessoas,
meu coração fosse capaz
de reconhecer aquilo
que minha memória nunca conheceu.
talvez seja por isso
que certos lugares parecem familiares
antes mesmo de eu chegar neles.
talvez seja por isso
que algumas músicas doam
sem terem nenhuma história minha.
talvez seja por isso
que, de vez em quando,
tenho a sensação de estar procurando
alguma coisa que não sei nomear.
talvez eu esteja procurando você.
ou talvez você esteja procurando por mim.
e essa é a parte mais cruel
se existirmos no mesmo mundo,
podemos estar vivendo
a mesma saudade
sem jamais saber
que ela tem um nome.
você pode estar olhando para o céu agora,
enquanto eu olho para o mesmo céu
e penso que deve existir alguém
em algum lugar
sentindo exatamente o que sinto.
e se houver…
eu espero que a vida seja gentil conosco.
porque não quero te encontrar
quando for tarde demais.
não quero passar por você
numa estação qualquer
e descobrir, anos depois,
que era você
a pessoa que meu coração procurava
enquanto eu ainda não sabia
o que estava procurando.
quero que, quando nossos olhos se encontrarem,
alguma coisa antiga dentro de mim
se lembre.
não do seu rosto.
não do seu nome.
mas da sensação.
aquela estranha certeza
de finalmente chegar
a algum lugar
onde nunca estive.
e talvez eu olhe para você
sem entender por quê
e pense:
“eu conheço você.”
mesmo que nunca tenhamos nos visto.
mesmo que nunca tenhamos conversado.
mesmo que o mundo inteiro diga
que somos dois estranhos.
porque talvez existam pessoas
que a gente não conhece
mas que o coração reconhece
antes mesmo de a vida apresentá-las.
Por: Maria V Ribeiro

