Poema: O Tribunal Silencioso da Consciência

1 min de leitura

Há algo de inquieto na consciência
como se ela nunca tivesse sido feita para repousar.
Ela observa tudo, até o que não aconteceu,
e julga com a precisão cruel dos que não sabem perdoar.
Eu caminhei por dentro de mim
como quem atravessa um corredor estreito,
sem janelas, sem fim,
e a cada passo eu encontrava versões de mim mesmo
que eu não tive coragem de ser.
Algumas estavam de joelhos.
Outras riam de forma vazia.
Outras apenas me olhavam
como se eu fosse o erro que continuava vivo.
O homem não é inteiro,
ele é um debate constante entre o que deseja e o que teme.
E nesse tribunal invisível,
ninguém é inocente,
nem mesmo quem sofre.
Porque até o sofrimento tem orgulho.
Ele gosta de ser lembrado,
de ser nomeado,
de ser a prova de que existimos profundamente.
Mas o que assusta não é o erro.
É a lucidez.
É saber demais sobre si
e ainda assim repetir os mesmos gestos,
como se a liberdade fosse apenas uma ideia mal explicada.
Eu tentei me purificar pelo pensamento,
mas o pensamento também tem sujeira.
Ele se contamina de memórias, de desejos não confessados,
de pequenas violências silenciosas
que ninguém vê, mas tudo registra.
E talvez seja isso o humano:
um ser que percebe o próprio abismo e, em vez de fugir,
aprende a sentar na beira dele
e chamar isso de vida.

Por:Maria V Ribeiro

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Mais Recente de Blog